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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre a fuinha

A fuinha (Martes foina) é um mustelídeo que está presente em todo o território continental português, incluindo áreas urbanizadas.

Quanto mede e pesa

A fuinha pode ter um comprimento de 65 a 85 centímetros e pesar entre um a dois quilos.

O que come

Por ser um carnívoro oportunista e generalista, pode variar muito a sua dieta. Em Portugal, tem como principais fontes de alimento os frutos, os artrópodes e os micromamíferos.

… e que animais é que a comem

Sendo um mesopredador, este carnívoro terrestre serve de alimento a animais com dimensões superiores à sua, como aves de rapina e outros mamíferos (como a raposa ou o gato-bravo).

Onde vive

Por ser versátil e generalista, a fuinha utiliza diversos habitats, incluindo zonas humanizadas ou rochosas. Em Portugal, utiliza montados e sobreirais para repouso e deslocação, e campos cultivados e galerias ripícolas para se alimentar.

E durante quantos anos

Entre oito a dez anos, mas excepcionalmente vivem até aos 14 anos. Em certas circunstâncias, como a incidência de doenças, a competição com outros carnívoros (como a marta e a geneta) e a pressão predatória por outros mamíferos, a longevidade da espécie reduz-se para seis anos.

Quantas ninhadas tem por ano

A fuinha tem apenas uma ninhada por ano, com três a cinco crias. Possui implantação diferida, o que significa que o óvulo já fecundado circula livremente no útero até surgirem condições ambientais ou biológicas mais propícias, ocorrendo só então a implantação. Segue-se o período de gestação, que se prolonga por 55 a 60 dias.

Estratégias de caça

Este carnívoro ronda a sua presa, surpreendendo-a e atacando-a. Também usa a sua habilidade trepadora para aceder a ninhos de aves.

Onde se pode encontrar em Portugal

Por todo o país, excluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

O facto de aproveitar infraestruturas humanas para repouso e ser um dos poucos carnívoros que utiliza áreas urbanizadas, onde se pode alimentar de ratazanas com sucesso.

Qual o seu papel na manutenção de ecossistemas saudáveis

Por se alimentar de animais mais pequenos, muitas vezes considerados pragas, esta espécie tem um importante papel na sua exterminação (principalmente de ratos e ratazanas), tanto a nível doméstico como de explorações agrícolas. Tem também um papel de relevo na disseminação de sementes e caroços a curtas e longas distâncias, que sendo expelidos pelas fezes levam a um aumento da abundância e da diversidade da flora nessas zonas.


Autora: Marta Dias

Marta Dias é membro da equipa do projecto do Livro Vermelho dos Mamíferos. É estudante de mestrado de Biologia da Conservação, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com particular interesse no grupo dos mamíferos carnívoros.

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre o corço

Em Portugal, as populações de corço (Capreolus capreolus) dividem-se em dois grandes núcleos de distribuição geográfica, a norte e a sul do rio Douro.

Quanto mede e pesa

O corço apresenta um comprimento que varia entre 95 centímetros e 1,35 metros, com uma altura ao garrote que pode ir dos 63 aos 67 centímetros. Este último conceito traduz-se na distância entre a base da pata e a região proeminente onde se unem as espáduas (região das omoplatas nos humanos) e é habitualmente usado para medir animais quadrúpedes. Já o peso deste ungulado é de 15 a 35 quilos.

O que come

Trata-se de um herbívoro generalista, que consome uma grande variedade de plantas: folhas, rebentos de espécies arbustivas e arbóreas, salgueiros e loureiros, bagas e outros frutos de plantas lenhosas, herbáceas, flores e, menos frequentemente, fungos. 

… e que animais é que o comem

Lobo ibérico, raposas – estas comem apenas as crias de corço – e também cães assilvestrados.

Corço em Vale Florido, Ansião. Foto: Isa Teixeira

Onde vive e por quantos anos

Esta espécie prefere bosques de folhosas, coníferas, florestas mediterrâneas e campos agrícolas. Pode viver em média oito a nove anos, sendo a esperança de vida superior nas fêmeas.

Quantas ninhadas tem por ano

Tem uma ninhada por ano entre o final de maio e início de junho, com uma a três crias.

Quanto tempo dura a gestação

Dez meses.

Onde se pode encontrar em Portugal

Existem dois grandes núcleos de distribuição geográfica nacional do corço, um a norte e outro a sul do rio Douro. Mais concretamente nas serras da Peneda-Gerês, Amarela, da Cabreira, do Marão, do Alvão, de Montesinho, da Coroa e da Nogueira.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

Os seus membros posteriores são mais alargados e elevados do que os anteriores, tornando o corço especialmente adaptado para dar grandes saltos.

Qual é o seu papel na manutenção dos ecossistemas saudáveis

É uma importante espécie de presa para carnívoros como o lobo-ibérico em Portugal.


Autoria: Ana Beatriz Duarte

Ana Beatriz Duarte é bolseira do Departamento de Biologia da Universidade da Universidade de Aveiro no âmbito do projeto de revisão do Livro Vermelho dos Mamíferos, e estudante de mestrado em Engenharia Zootécnica na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre o sacarrabos

O sacarrabos (Herpestes ichneumon) é um mamífero carnívoro que vive de norte a sul de Portugal Continental, com estratégias de caça e uma rapidez surpreendentes.

Quanto medem e pesam

Estes mamíferos carnívoros têm entre 46 a 54 centímetros de comprimento corporal e outros 36 a 45 centímetros de cauda. O peso varia entre 2 e 3,7 quilos.

O que comem

Este mamífero é generalista e oportunista, caçando a espécie mais abundante no seu habitat. A dieta é dominada por coelhos jovens ou micromamíferos, mas também pode incluir artrópodes, aves, anfíbios, répteis, crustáceos, frutos e cogumelos.

Que animais é que os comem

Sendo um mesopredador, o sacarrabos serve de alimento a predadores de maiores dimensões, como o lince-ibérico.

Onde vivem

Preferem habitats com maior cobertura vegetal como o maquis mediterrâneo espesso com estevas (Cistus sp.), lentiscos (Pistacia lentiscus), medronheiros (Arbutus unedo), azinheiras (Quercus ilex) e por vezes também pinheiros (Pinus sp.) e eucaliptos (Eucalyptus sp.).

Quantos anos vivem

A longevidade máxima registada em cativeiro foi de 20 anos.

Quantas ninhadas têm por ano e quanto tempo dura a gestação

O sacarrabos tem 1 ninhada por ano, com 2 a 4 crias. A gestação prolonga-se por menos de três meses, entre 72 e 88 dias.

Quais são as estratégias de caça

Estes mamíferos têm um comportamento exploratório subterrâneo que lhes permite invadir tocas (mamíferos) ou desenterrar presas (anfíbios). Têm também um comportamento de perseguição das presas (répteis) e de captura à superfície do solo (invertebrados).

Aproveitam os seus hábitos de escavação e exploração consoante os diferentes períodos de menor mobilidade física e de maior atividade ecológica de cada espécie predada, a fim de gastarem o mínimo de energia na captura dessas presas. Também caçam em grupo, tendo a particularidade de rodearem a presa, deixando-lhe assim poucas hipóteses de escapar.

Onde se podem encontrar em Portugal

Em toda a região mediterrânica de Portugal, e também de forma mais esporádica e fragmentada no restante território, que corresponde ao Noroeste do país. Este último está inserido na região biogeográfica eurosiberiana.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

O sacarrabos tem reflexos suficientemente rápidos para capturar ofídeos (cobras). 

Qual o seu papel na manutenção de ecossistemas saudáveis

Têm um grande impacto nas populações das suas presas (incluindo cobras e roedores), reduzindo o seu número.


Autoria: Marta Dias

Marta Dias é membro da equipa do projecto do Livro Vermelho dos Mamíferos. É estudante de mestrado de Biologia da Conservação, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com particular interesse no grupo dos mamíferos carnívoros.

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre o morcego-de-savi

O morcego-de-savi (Hypsugo savii) ocorre principalmente nas áreas montanhosas do Norte e Centro de Portugal, onde caça habitualmente em voo alto, acima dos 100 metros.

Como se faz a identificação desta espécie

Esta espécie foi originalmente descrita como pertencendo ao género Vespertilio, mas foi posteriormente incluída no género Pipistrellus devido às suas similitudes morfológicas com as espécies deste género. Finalmente, tendo em consideração algumas características bioquímicas e morfológicas, nomeadamente a morfologia do pénis e mais recentemente genéticas, confirmou-se tratar-se de uma espécie do género Hypsugo.

Morfologicamente, o morcego-de-savi é uma espécie de tamanho pequeno e de coloração muito variável. A maioria dos indivíduos apresenta dorsalmente uma pelagem longa de cor castanha ou preta com as pontas douradas ou amareladas, contrastando com a cor branca ou amarelo-esbranquiçada que apresenta na zona ventral.

Tem orelhas curtas com um trago muito parecido com os dos géneros Pipistrellus e Eptesicus. As partes desprovidas de pelo (cara, orelhas e membranas alares) são de cor negra. As últimas vértebras sobressaem quatro a cinco milímetros do uropátagio. O pénis (característica distintiva), frequentemente bicolor, é pequeno e alarga na parte distal, apresentando uma curvatura angular reta. 

Foto: ©Paulo Barros

Quais são as suas dimensões

Os dados de indivíduos capturados no Norte e Centro de Portugal permitiram obter um comprimento médio do antebraço (FA) de 34,35 milímetros e um peso de 7,87 gramas. 

Espécies similares

As várias características morfológicas distintivas deste morcego permitem a sua perfeita identificação, pois não é passível de ser confundido com outras espécies.

Como se caracteriza a sua ecolocalização

Caracteriza-se por ter uma frequência máxima de energia entre 30 a 35 kHz, pulsos longos de frequência constante ou modulada (aproximadamente 8 ms) e intervalo entre pulsos irregular normalmente superior a 200 ms, apresentando ainda uma maior amplitude no início do pulso.

Qual é a área de distribuição desta espécie

Na Europa, é mais ou menos comum nas regiões mediterrânicas e sub-mediterrânicas de Portugal, Espanha e França, ocorrendo de um forma mais esporádica na Suíça, Áustria, Norte da Hungria, assim como no Norte da Crimeia, Bulgária, Republica Checa, Eslováquia, sul da Grécia e nas ilhas mediterrânicas de Chipre e Sardenha. Em Portugal, a sua distribuição parece acompanhar as regiões montanhosas do Centro e Norte, podendo também ocorrer no Sul mas de uma forma mais pontual.

Habitat

O morcego-de-savi pode utilizar áreas desde o nível do mar até aos 3.300 metros de altitude, preferindo zonas rochosas e/ou montanhosas. Contudo, pode ainda utilizar uma maior diversidade de habitats, desde vales amplos e sem zonas rochosas a escarpas costeiras e montanhosas, assim como pequenos meios urbanos e habitats constituídos por um mosaico de pastagem, agricultura e matos. 

Como se reproduz

A informação disponível é ainda muito escassa para se poder traçar um perfil reprodutivo. Os poucos registos que existem sobre abrigos de criação referem-se a observações realizadas em Itália, onde foram encontradas colónias de criação sob telhas e em juntas de dilatação de edificações. Em Portugal parece ser uma espécie com reprodução tardia, havendo registos de criação em finais de julho e início de agosto.

… e do que se alimenta

Este morcego caça em voo preferencialmente alto (acima dos 100 metros) e em áreas abertas. Alimenta-se de lepidópteros, dípteros, hemípteros e neurópteros, podendo mais esporadicamente caçar a baixa altitude (entre 2 e 3 metros).

Mobilidade

Não existe informação sobre este aspeto biológico. Contudo, apesar de ser considerado uma espécie sedentária, supõe-se que este morcego possa realizar deslocações curtas. A distância máxima observada foi de 250 quilómetros.

Estatuto de conservação

De acordo com o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, esta espécie é classificada como tendo “Informação insuficiente” (DD), não existindo até à data informação adequada para avaliar corretamente o seu estatuto. Esta espécie encontra-se no Anexo B-IV da Diretiva Habitat, sendo de interesse comunitário, cuja conservação exige proteção rigorosa. Encontra-se ainda incluída nos anexos II da Convenção de Berna e Convenção de Bona.


Autoria: Paulo Barros

Paulo Barros é é membro da equipa do projeto do Livro Vermelho dos Mamiferos. É membro da equipa do Laboratório de Ecologia Aplicada (LEA) e investigador do Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), nos domínios da ecologia e conservação da fauna em geral, com particular interesse no grupo dos quirópteros.

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre o musaranho-anão-de-dentes-vermelhos

O tamanho e peso reduzidos fazem justiça ao nome comum do musaranho-anão-de-dentes-vermelhos (Sorex minutus), que em Portugal Continental ocorre principalmente no Noroeste.

Quanto mede e qual é o seu peso

O musaranho-anão-de-dentes-vermelhos é um mamífero minúsculo. O seu corpo mede apenas de 42 a 72 milímetros e a cauda entre 32 e 48 milímetros. Quanto ao peso, varia entre dois e sete gramas.

O que come…

Este mamífero minúsculo é insectívoro. Alimenta-se de invertebrados pequenos, como aranhas, escaravelhos, bichos-de-conta e caracóis.

… e que animais é que o comem

O musaranho-anão-de-dentes-vermelhos é essencialmente predado por aves de rapinas diurnas e noturnas, mas também por mamíferos carnívoros.

Onde vive e por quantos anos

Esta espécie ocorre preferencialmente em habitats húmidos com boa cobertura do solo, como prados ou orlas das florestas. Pode também ocorrer em zonas montanhosas. Constrói ninhos redondos constituídos por ervas entre raízes de árvores ou arbustos.

Como outras espécies deste género, vive no máximo um ano.

Foto: Sophie von Merten

Quantas ninhadas tem por ano e com quantas crias

Uma a duas ninhadas, com cerca de seis crias cada uma. Quanto à gestação, prolonga-se por 25 dias.

Quais são as suas estratégias de caça

Esta espécie procura as suas presas principalmente na superfície do solo, localizando invertebrados comestíveis usando o seu focinho comprido e flexível, vibrissas sensitivas e um olfato muito apurado. Também é um bom trepador e pode subir na vegetação até três metros, com isso evitando entrar em competição com musaranhos maiores como o Sorex araneus, ou aqui em Portugal o musaranho-de-dentes-vermelhos (Sorex granarius). Não cava muito bem, mas pode remexer solo solto com o seu focinho, procurando pequenos invertebrados ou larvas.

Onde se pode encontrar em Portugal

Este musaranho ocorre principalmente no Noroeste de Portugal Continental. E possivelmente, também em zonas mais elevadas no Centro do país.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

O musaranho-anão-de-dentes-vermelhos é um dos mamíferos mais pequenos do mundo. No entanto, tem um apetite enorme devido ao seu metabolismo elevado. Come diariamente pelo menos o equivalente ao seu próprio peso para sobreviver, estando por isso ativo todo o dia e noite à procura de invertebrados.

Como no inverno o número dos insetos diminui, este pequeno mamífero desenvolveu uma estratégia para poupar energia: durante a estação mais fria reduz ainda mais a sua massa corporal, incluindo a massa cerebral e o tamanho do crânio, estratégia conhecida como fenómeno de Dehnel.

Foto: Sophie von Merten

Qual o seu papel na manutenção de ecossistemas saudáveis

O musaranho-anão-de-dentes-vermelhos ocupa uma posição muito importante nas cadeias tróficas (cadeias alimentares), porque não só serve como presa de muitas espécies de rapinas e carnívoros, mas também ajuda a controlar as populações de invertebrados. Como este musaranho está adaptado a climas moderados a frios, pode servir como sentinela do aquecimento global: se o limite da sua distribuição se contrair para Norte, pode indicar risco de extinção das espécies.


Autoria: Sophie von Merten

Sophie von Merten é investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa nos domínios da ecologia, comportamento e fisiologia animal, com particular interesse no grupo dos pequenos mamíferos.

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre o rato-de-água

Acredita-se que o rato de água (Arvicola sapidus), presa para inúmeras espécies, ocorre por todo o território de Portugal Continental.

Quanto mede e pesa o rato de água

O comprimento da cabeça e do corpo, em conjunto, varia entre 17 e 23 centímetros. Quanto à cauda, mede entre 10 a 14,7 centímetros de comprimento. Já o peso destes pequenos mamíferos pode ir dos 140 aos 310 gramas.

O que come

É um animal herbívoro. Alimenta-se principalmente de talos e folhas de espécies vegetais que crescem nas margens de cursos de água e lagoas, sobretudo tifáceas, ciperáceas e gramíneas. No entanto, pode também consumir secundariamente presas animais, como insectos, caranguejos e pequenos peixes e anfíbios.  

Habitat típico do rato de água. Foto: Ricardo Pita

…e que animais é que o comem

Os principais predadores do rato de água incluem a lontra e outros mesocarnívoros como a geneta, a raposa, o sacarrabos, o toirão, o gato-bravo, a fuinha e o visão americano. Entre as aves, são também seus predadores a garça-real, a cegonha, e aves de rapina como a águia-de-bonelli ou a águia-calçada. Embora menos frequentemente, pode também ser presa de outras rapinas como a coruja-das-torres, a coruja-do-mato, o mocho-galego, ou o bufo-real. Apesar das suas dimensões corporais grandes relativamente a outros mamíferos de pequeno porte, a espécie pode ser também ocasionalmente predada por cobras e víboras, como a cobra-de-água-viperina e a víbora-cornuda.

Onde vive e por quantos anos

É considerada uma espécie semiaquática, normalmente associada à presença de água, habitando margens de pequenos cursos ou massas de água estável com vegetação herbácea e arbustiva desenvolvidas, que lhe conferem alimento e protecção. Este mamífero prefere as margens pouco declivosas e com solos de textura suave que lhe permitem escavar tocas e galerias. No entanto pode também ocorrer em zonas húmidas sem presença de água superficial, incluindo lagoas secas e prados húmidos.  

O rato de água pode viver entre um e quatro anos.

Foto: Ricardo Pita

Quantas ninhadas tem por ano e com quantas crias

Pode ter até sete ninhadas por ano, com um número de crias por ninhada que pode variar entre um a seis. 

Já o tempo de gestação demora entre 21 e 22 dias.

Onde se pode encontrar em Portugal?

A distribuição desta espécie a nível nacional não é ainda bem conhecida, embora os dados existentes apontem para a sua ocorrência por todo o território de Portugal Continental, ainda que de forma descontínua e com subpopulações mais ou menos isoladas, como resultado das suas especificidades ao nível do habitat.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

O rato-de-água é um excelente nadador, podendo permanecer vários minutos debaixo de água. Vive em pequenos grupos familiares, podendo atingir uma densidade em habitats lineares de cerca de cinco indivíduos por cada 100 metros. As fêmeas com crias podem adoptar comportamentos mais agressivos, incluindo face a alguns dos seus predadores naturais, como cobras e serpentes.

A par do rato de Cabrera, com qual pode partilhar alguns tipos de habitats menos alagados, esta espécie apresenta um padrão de distribuição metapopulacional. A sua distribuição está restrita à Península Ibérica e parte de França, tendo um estatuto de ameaça de Vulnerável ao nível global. Embora em Portugal o seu estatuto actual seja Pouco Preocupante, suspeita-se que à semelhança do que acontece em Espanha e França as suas populações possam estar em declínio acentuado – não só devido à perda e fragmentação do habitat, mas também à predação pelo visão-americano, espécie exótica que se encontra em expansão no Norte de Portugal.

Qual é o seu papel na manutenção de ecossistemas saudáveis

Pela posição que ocupa nas cadeias tróficas (cadeias alimentares), o rato-de-água tem um papel fundamental no funcionamento dos ecossistemas. Desempenha também funções ao nível da permeabilização e oxigenação dos solos e na dispersão de sementes.

Além disso, embora não sejam conhecidos os impactos da poluição transportada pela água (pesticidas, metais pesados, etc.), é provável que esta espécie se associe a águas com baixa contaminação, uma vez que águas mais poluídas normalmente atraem a ratazana-castanha, as quais poderão excluir o rato-de-água por competição. 


Autoria: Ricardo Pita

Ricardo Pita é membro da equipa da Unidade de Biologia da Conservação (UBC) e investigador do Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED) da Universidade de Évora (EU) nos domínios da ecologia e conservação de vertebrados terrestres, com particular interesse no grupo dos pequenos mamíferos.

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre a lontra

A lontra (Lutra lutra) pode encontrar-se por todo o país, excepto nos Açores e Madeira. Desempenha um importante papel a nível do equilíbrio biológico dos meios aquáticos onde se encontra.

Quanto medem

Estes mamíferos têm um comprimento corporal que varia entre 59 e 90 centímetros. Apresentam ainda, em média, até 47 centímetros de cauda e até 30 centímetros de altura ao garrote. Este último conceito traduz-se na distância entre a base da pata e a região proeminente onde se unem as espáduas (região das omoplatas nos humanos) e é habitualmente usado para medir animais quadrúpedes.

Quanto pesam

As lontras costumam pesar entre seis a dez quilos.

O que comem

As lontras alimentam-se maioritariamente de peixes, mas também podem predar outros vertebrados como roedores, aves aquáticas, anfíbios, invertebrados e insectos. Em Portugal, com a rápida invasão dos sistemas aquáticos de água doce da maior parte do território nacional pelo lagostim-vermelho (Procambarus clarkii), introduzido durante os anos 70, este tornou-se um recurso básico na sua dieta.

… e que animais é que as comem

Na Península Ibérica, não têm predadores naturais.

Onde vivem

Estes mamíferos vivem normalmente em zonas húmidas de água doce, como rios, ribeiras, pauis, lagoas e albufeiras. Contudo também podem ocorrer em ambientes salobros, como os estuários, ou mesmo frequentar ambientes de água salgada no litoral. Preferem habitats ripícolas por proporcionarem simultaneamente um fácil acesso ao meio aquático e refúgio.

E por quantos anos

Em cativeiro, as lontras podem chegar a viver cerca de 17 anos.

Quantas ninhadas têm por ano e com quantas crias

Têm apenas uma ninhada por ano, com o nascimento de uma a cinco crias. Isto após um período de gestação de 60 dias (cerca de dois meses).

Quais são as estratégias de caça da lontra

Sendo um carnívoro, a lontra adapta o seu comportamento de caça ao tipo depresa que captura, caçando muitas vezes por perseguição debaixo de água.

Onde se podem encontrar em Portugal

Por todo o país, excluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

O facto da progenitora, juntamente com as crias de cada ano, poder formar um grupo familiar, brincando e perseguindo-se uns aos outros.

Qual o papel da lontra na manutenção de ecossistemas saudáveis

Por ser uma espécie oportunista, a lontra desempenha um importante papel a nível do equilíbrio biológico dos meios aquáticos onde se encontra, já que tende a capturar indivíduos que estejam mais acessíveis, como animais mais fracos, doentes ou que existem em maiores quantidades. 


Autoria: Marta Dias

Marta Dias é membro da equipa do projecto do Livro Vermelho dos Mamíferos. É estudante de mestrado de Biologia da Conservação, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com particular interesse no grupo dos mamíferos carnívoros.

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre a cabra-montês

Em Portugal, a cabra-montês (Capra pyrenaica) só pode ser encontrada na área protegida do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Quanto medem

O comprimento do corpo da cabra-montês varia entre 106,6 e 155 centímetros, no corpo dos machos, e 96,9 a 130 centímetros. Já a altura ao garrote é de 65 a 89 centímetros. Este último conceito traduz-se na distância entre a base da pata e a região proeminente onde se unem as espáduas (região das omoplatas nos humanos) e é habitualmente usado para medir animais quadrúpedes. 

Quanto pesam

Os machos de cabra-montês pesam geralmente entre 50,4 a 90 quilos, enquanto as fêmeas são menos pesadas, pois variam entre 31,3 e 40 quilos.

O que comem

Os animais desta espécie alimentam-se de gramíneas e plantas lenhosas, como por exemplo folhas de carvalhos. Algumas das plantas que servem de alimento à cabra-montês: azinheira (Quercus ilex), azevinho (Ilex aquifolium), zimbro (Juniperus oxvcedrus), aderno (Philyrea latifólia), piorno (Cytisus sp.), urzes (por exemplo, Erica arborea), alecrim (Rosmarinus officinalis) e silvas (Rubus ulmifolius).

… e que animais é que as comem

Lobo ibérico (Canis lupus signatus) e águia-real (Aquila chrysaetos).

Onde vivem e por quantos anos

A cabra-montês habita em zonas de montanha, escarpas, matos com substrato rochoso e zonas de carvalhal.

As fêmeas vivem 22 anos e os machos 15 anos, em média.

Quantas ninhadas têm por ano e com quantas crias

A cabra-montês tem uma única ninhada por ano, normalmente com uma cria por fêmea, embora possa ocorrer o nascimento de gémeos. O período de gestação costuma prolongar-se por cinco meses (155 dias).

Onde podemos encontrar a cabra-montês em Portugal

Em Portugal, esta espécie ocorre apenas no Parque Nacional Peneda-Gerês.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

A sua capacidade de escalar escarpas de montanhas e de viver a elevadas altitudes. 

Qual é o papel das cabras-monteses na manutenção dos ecossistemas saudáveis

São uma importante espécie de presa para carnívoros como o lobo-ibérico em Portugal.


Autoria: Ana Beatriz Duarte

Ana Beatriz Duarte é bolseira do Departamento de Biologia da Universidade da Universidade de Aveiro no âmbito do projeto de revisão do Livro Vermelho dos Mamíferos, e estudante de mestrado em Engenharia Zootécnica na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. 

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre o javali

O javali (Sus scrofa) está amplamente distribuído por todo o território português, onde o único predador que dele se alimenta é o lobo-ibérico.

Quanto medem

O comprimento do javali varia entre 1,40 e 1,80 metros, enquanto a altura ao garrote é de 65 centímetros. Este último conceito traduz-se na distância entre a base da pata e a região proeminente onde se unem as espáduas (região das omoplatas nos humanos) e é habitualmente usado para medir animais quadrúpedes.

Quanto pesam

Os machos são mais pesados, entre 50 a 250 quilos, com uma média de 90 quilos. Já as fêmeas pesam de 40 a 200 quilos, apresentando 65 quilos em média.

O que comem

O javali é um animal omnívoro, alimentando-se de raízes, frutos, bolotas, castanhas e sementes, plantações (milho, batata, …), caracóis, minhocas, insetos, ovos e por vezes pequenos mamíferos.

…e que animais é que os comem

Lobo-ibérico.

Onde vivem e por quantos anos

Estes mamíferos adaptam-se facilmente a diferentes habitats, mas preferem florestas, onde normalmente vivem entre dois a dez anos.

Quantas ninhadas têm por ano e com quantas crias

Têm uma ninhada por ano, com duas a dez crias.

Quanto tempo dura a gestação

Cerca de 110 dias, ou seja, um pouco mais do que três meses e meio.

Onde se podem encontrar em Portugal

Os javalis estão distribuídos amplamente por todo o país.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

A sua capacidade de adaptação ao meio ambiente e resiliência.

Qual o seu papel na manutenção dos ecossistemas saudáveis

O seu papel depende da densidade populacional, uma vez que um número controlado de javalis pode favorecer a diversidade e dispersão de espécies vegetais, enquanto que um número elevado produz o oposto. Este mamífero também pode ter um efeito positivo em insetos considerados pragas para a agricultura e é uma espécie de presa para grandes predadores, como o lobo-ibérico.


Autoria: Ana Beatriz Duarte

Ana Beatriz Duarte é bolseira do Departamento de Biologia da Universidade da Universidade de Aveiro no âmbito do projeto de revisão do Livro Vermelho dos Mamíferos, e estudante de mestrado em Engenharia Zootécnica na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

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Espécies do Livro Vermelho: Curiosidades sobre a marta

A marta (Martes martes) vive em extensas áreas florestais de coníferas, carvalhais ou mistas, nas quais muitas vezes caça nas árvores, correndo pelos seus ramos.

Quanto medem

As fêmea têm um comprimento registado que varia entre 46,5 e 57,2 centímetros; os machos costumam ser um pouco maiores, com um comprimento mínimo de 51,3 e máximo de 65,9 centímetros.

Quanto pesam

O peso das fêmeas varia entre 750 gramas e 1,2 quilos; quanto aos machos, vai de 800 gramas a 1,6 quilos.

O que comem

Por ser um predador generalista, a marta pode variar muito a sua dieta. Pode consumir anfíbios, répteis, insectos, frutos, aves e esquilos.  Por vezes tende a especializar-se no consumo de micromamíferos, particularmente roedores do género Apodemus.

…e que animais é que as comem

Sendo um mesopredador, a marta serve de alimento a predadores de maiores dimensões, como as raposas.

Onde vivem e por quantos anos

Vivem em extensas áreas florestais de coníferas, carvalhais ou mistas, num total de oito a dez anos.

Quantas ninhadas têm por ano e com quantas crias

Este mamífero tem uma ninhada por ano, com uma a cinco crias.

Quanto tempo dura a gestação

Prolonga-se por 30 a 45 dias e possui implantação diferida, ou seja, o óvulo já fecundado aguarda no útero pelas condições certas em termos ambientais, sendo só então que se implanta.

Estratégias de caça

As martas caçam nas árvores, saltando de árvore em árvore e correndo pelos ramos. Também procuram alimento no chão, principalmente em habitats que não têm muitas árvores.

Onde se podem encontrar em Portugal

A área de distribuição da marta é ainda incerta, mas julga-se que esteja restrita ao Norte (Minho e Trás-os-Montes) e Centro do país, representando o limite sudoeste da distribuição da espécie na Europa, seleccionando positivamente bosques mistos de carvalhos (Quercus robur, Quercus faginea, Quercus pyrenaica) e zonas com níveis de precipitação elevados. Está ausente dos arquipélagos dos Açores e da Madeira.

O que nos fascina e surpreende nesta espécie

A sua capacidade trepadora e de se movimentar entre as árvores com relativa faciladade, o que se deve às suas garras semi-retrácteis – são os únicos mustelídeos que as possuem – e aos grandes saltos que conseguem dar.

Qual o seu papel na manutenção de ecossistemas saudáveis

Por se alimentar e ser um grande caçador de animais mais pequenos (por vezes roedores), muitas vezes considerados pragas, a marta tem um importante papel na sua exterminação.


Autoria: Marta Dias

Marta Dias é membro da equipa do projecto do Livro Vermelho dos Mamíferos. É estudante de mestrado de Biologia da Conservação, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com particular interesse no grupo dos mamíferos carnívoros.